A causa do feminicídio no Brasil: como educação e família ajudam na prevenção
03/02/2026
(Foto: Reprodução) O feminicídio no Brasil não é um fenômeno isolado nem imprevisível. Ele é o resultado mais extremo de uma violência que se constrói ao longo do tempo, dentro das relações afetivas, familiares e sociais. Mesmo com ampla divulgação nos meios de comunicação, essas mortes continuam sendo tratadas como tragédias individuais, quando, na verdade, revelam um problema social profundo.
Mas qual é a causa do feminicídio no Brasil? Como a educação e a família ajudam na prevenção? Qual é a ajuda necessária para o feminicídio no Brasil? As respostas para essas e outras perguntas estão na entrevista com Elisabete Garcia Marangon, mestre em Psicologia Clínica e especialista em Terapia de Casal e Família.
Feminicídio no Brasil
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Dados do Atlas da Violência 2025 mostram que muitas mulheres são assassinadas dentro de casa, em sua maioria por parceiros ou ex-parceiros, após um histórico de controle, ameaças e violência psicológica. Essas mortes não acontecem de forma abrupta. Elas são anunciadas.
“Na minha prática clínica e na pesquisa acadêmica que desenvolvi ao longo dos últimos anos, esse padrão se repete com força: a violência raramente aparece de repente. Ela costuma ser construída no cotidiano das relações, muitas vezes normalizada antes de ser reconhecida como risco. Para compreender por que o feminicídio persiste no país, é preciso deslocar o olhar do ato final e observar os padrões de relação que se repetem ao longo do tempo”, explica a especialista.
Elisabete Garcia Marangon
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Acompanhe a seguir quatro reflexões importantes levantadas sobre o assunto:
A violência se repete quando padrões familiares não são rompidos
O feminicídio costuma ser o ponto final de uma violência que atravessa gerações. Em muitos contextos familiares, padrões de controle, silenciamento e hierarquias rígidas entre homens e mulheres são transmitidos como formas “normais” de convivência. Mulheres aprendem a suportar, homens aprendem a não demonstrar fragilidade, e conflitos são empurrados para o silêncio.
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Esses padrões não se mantêm apenas no âmbito privado. Eles são reforçados por uma cultura que naturaliza valores machistas e por uma ausência histórica de espaços educativos que promovam diálogo, escuta e comunicação não violenta. Quando essas transmissões não são reconhecidas e interrompidas, a violência muda de forma, mas continua encontrando espaço para se repetir.
Romper ciclos de violência não significa culpar famílias, mas criar condições para que elas possam fazer diferente do que aprenderam, com apoio, escuta e responsabilização compartilhada. Sem esse cuidado, padrões não elaborados seguem sendo transmitidos, atravessando gerações e se atualizando em novas formas de sofrimento.
Nem todas as mulheres estão expostas da mesma forma
A violência contra as mulheres no Brasil não atinge todas da mesma maneira. Mulheres negras seguem sendo as principais vítimas de homicídio, reflexo do racismo estrutural e da desigualdade social. A realidade das mulheres trans é ainda mais grave. No país, a expectativa de vida dessa população gira em torno de 35 anos, marcada por transfobia, exclusão familiar, dificuldade de acesso à educação, trabalho e serviços de saúde.
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Esses dados evidenciam que o feminicídio precisa ser compreendido a partir de múltiplas camadas de vulnerabilidade. Considerar gênero sem levar em conta raça, classe social, território e acesso a políticas públicas é invisibilizar quem mais sofre e reforçar a lógica de que algumas vidas seguem sendo menos protegidas do que outras.
Educação é estratégia de prevenção
Falar em educação como prevenção ao feminicídio exige ir além de campanhas pontuais ou conteúdos escolares isolados. Educação, nesse contexto, diz respeito à forma como uma sociedade ensina seus membros a lidar com emoções, frustrações, conflitos e diferenças ao longo da vida. Quando esse aprendizado falha, a violência passa a ocupar o lugar do diálogo.
A escola é um espaço estratégico para romper ciclos de violência. É nela que crianças e adolescentes podem aprender práticas de comunicação não violenta, educação emocional e reflexão crítica sobre papéis de gênero. Esses aprendizados ampliam repertórios relacionais e oferecem alternativas concretas ao uso do controle e da agressividade como formas de resolução de conflitos.
Elisabete Garcia Marangon
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Esse trabalho, no entanto, não pode ser sustentado apenas pela escola ou pela família de forma isolada. Quando o Estado investe em políticas públicas consistentes, como formação continuada de educadores, campanhas educativas permanentes e ações intersetoriais voltadas à cultura de paz, amplia-se a capacidade coletiva de prevenção da violência. A ausência dessas políticas mantém a reprodução de valores machistas e naturaliza comportamentos que, mais tarde, podem se transformar em agressões graves.
Quando uma sociedade falha em ensinar seus membros a lidar com conflitos, frustrações e diferenças de forma cuidadosa, ela acaba ensinando, mesmo sem intenção, formas violentas de se relacionar.
A família como espaço de ruptura e proteção
A família é um dos primeiros espaços onde se aprende a se relacionar. Quando há diálogo, reconhecimento emocional e possibilidade de elaboração dos conflitos, ela se torna um importante fator de proteção. Quando esses elementos estão ausentes, padrões violentos tendem a se repetir.
Fortalecer famílias não significa idealizá-las, mas oferecer suporte, acesso a serviços psicológicos e políticas públicas que reconheçam seu papel central na prevenção da violência. Famílias acompanhadas e apoiadas têm mais condições de interromper transmissões históricas de silenciamento, controle e desigualdade.
Elisabete Garcia Marangon - Feminicídio no Brasil
O enfrentamento ao feminicídio exige mais do que punição. Exige prevenção, educação e cuidado com as relações. Enquanto a sociedade seguir reagindo apenas depois que a violência atinge seu ponto mais extremo, continuará lidando com perdas irreversíveis.
Romper ciclos de violência é uma responsabilidade coletiva que começa na forma como educamos, nos comunicamos e cuidamos uns dos outros, dentro das famílias, nas escolas e nas políticas públicas que escolhemos sustentar.
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Elisabete Garcia Marangon, CRP - 06/66237